Um projeto sem limites. Tornar a vela acessível a jovens com deficiência

Ana Lemos sofre de espinha bífida, faz vela há quatro anos e participa em provas da modalidade

Sporting Clube de Aveiro apoia projeto gratuito para os velejadores com necessidades especiais e que funciona em regime de voluntariado. Psicóloga e terapeuta aplaudem estas iniciativas que promovem a autoestima

“Dá-me a sensação de que o vento hoje está muito bom.” Com a ajuda dos treinadores, Ana Lemos passa da cadeira de rodas para o barco. Veste uma camisola cor-de-rosa, que combina com a cor do convés. É hoje uma velejadora confiante, de sorriso sempre no rosto, tanto que fica difícil imaginar que quando começou a praticar vela, há quatro anos, tinha fobia da água. “Nas primeiras vezes, com a inclinação do barco, era assustador.” Com a prática – e a certeza de que o barco adaptado não vira -, perdeu o medo. “Tem sido uma experiência maravilhosa.”

Ana tem 27 anos e estuda Bioquímica na Universidade de Aveiro. Sofre de espinha bífida, uma malformação congénita ao nível da coluna vertebral”, que faz que viva presa a uma cadeira de rodas. Nunca tinha praticado desporto até ser desafiada a integrar o projeto Sem Limites, um programa de vela adaptada para pessoas com deficiência promovido pelo Sporting Clube de Aveiro (SCA). Faz parte de um grupo de cinco velejadores – juntamente com Jorge Ruivo, Ana Martin, Sofia Gonçalves e Gonçalo Gonçalves -, que participa em provas nacionais da modalidade.

Pontualmente, o SCA organiza ações com associações de pessoas com mobilidade condicionada e necessidades educativas especiais, que “beneficiam em muito”com iniciativas do género. “Antes de mais, a prática de exercício físico tem uma relação direta com o aumento do bem estar global. Depois, atividades como esta, dirigidas a pessoas com necessidades especiais, promovem a autoesti-ma – “nós também conseguimos fazer” – e isso tem um grande impacto na sua vida”, afirma Inês Afonso Marques, coordenadora da área infantojuvenil da Oficina da Psicologia.

Venezuelano usa quadriciclo para dar volta ao mundo

Deficiente físico supera limitações em busca do sonho de entrar no livro dos recordes e levantar a bandeira da paz

Dar uma volta ao mundo é uma façanha por si só, mas fazer isso sem usar as pernas, parece praticamente impossível. Diagnosticado com paralisia infantil aos 5 anos, o venezuelano Ismael Oswaldo Morales Buenaño não deixou que limitações físicas o impedissem de realizar um sonho: entrar para o Livro Guinness dos Recordes.

Ismael largou o emprego como locutor de rádio, fez as malas e passou a explorar o mundo a bordo de um quadriciclo motorizado. O viajante, que agora visita Manaus, garante que já passou por mais de 115 países.

Originário da Ilha de Margarita, a nordeste de Caracas, o venezuelano começou a viagem pela Colômbia, já visitou todos os países da América do Sul e grande parte da Europa.

Ismael está na estrada há 5 anos e 10 meses e conta que a motivação para iniciar a jornada veio do momento político pelo qual a Venezuela passa. “Meu país passa por um momento de muita dificuldade e escassez. A violência tomou conta das nossas cidades. Não me sentia seguro lá”.

Ismael contou, também, que, além de entrar em contato com diferentes paisagens e culturas, a volta ao mundo é uma oportunidade de lutar pelos direitos humanos e motivar outros deficientes físicos a superarem dificuldades.

“Fico triste vendo tantas guerras hoje em dia. Viajar pelo mundo, conhecer pessoas e fazê-las abraçar a causa é a minha maior recompensa”, disse emocionado.

Apesar de não poder usar as pernas e depender da ajuda de uma muleta para ficar em pé, a maior dificuldade de Ismael para completar sua trajetória é a questão financeira.

“Dependo de patrocínio ou ajuda das pessoas que conheço nas viagens. Nem sempre consigo. Já tive que dormir na rua e passei fome diversas vezes, mas vou seguir em frente”.

Ismael saiu de Boa Vista, em Roraima, e percorreu 785 quilômetros até chegar a Manaus, na última sexta-feira, dirigindo o quadriciclo que usa para se locomover. Assim que conseguir ajuda financeira na capital amazonense, Ismael segue viagem para a América Central e América do Norte.

“Espero ficar aqui mais alguns dias e colher o máximo de ajuda possível. Estou viajando pelo Brasil há três meses e a população tem sido generosa comigo”.

Ismael está hospedado na Casa do Imigrante, espaço na zona centro-oeste de Manaus destinado a acolher imigrantes sem condições financeiras de pagar por moradia, e pede que interessados em ajudar façam uma visita ao local.

De acordo com estimativas do próprio viajante, a volta ao mundo deve acabar em, no máximo, três anos, completando um total de nove anos. A expectativa de Ismael é morar em algum país da Europa depois de completar a jornada.

Entra em vigor lei que exige equipamentos adaptados a pessoas com deficiência

Os equipamentos públicos de lazer, como parquinhos e praças deverão ser adaptados para pessoas com deficiência. A determinação está na lei (Lei 13.443/17) que alterou a Lei da Acessibilidade (Lei 10.098/00).

A nova lei, que entrou em vigor na semana passada, determina que cada brinquedo e equipamento de lazer existentes devem ser adaptados e identificados, tanto quanto tecnicamente possível, para possibilitar a utilização por pessoas com deficiência visual ou com mobilidade reduzida. A proposta foi aprovada pela Câmara no fim de março.

Peso da deficiência

A relatora da proposta na Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, deputada Zenaide Maia (PR-RN), destacou a importância das brincadeiras no desenvolvimento das crianças.

“O Estado e a população podem, sim, reduzir o peso da deficiência, porque se eu tenho uma deficiência de locomoção, sou um cadeirante, mas se onde eu for eu tiver acessibilidade aquilo deixou de ser uma deficiência para mim porque eu faço o mesmo que os outros que não têm fazem”, afirmou a parlamentar.

Custos

Em relação à adaptação dos equipamentos de lazer, Zenaide Maia afirmou ser preciso arcar com os custos para que haja a inclusão de todas as pessoas nos espaços públicos.

Segundo o IBGE, 45,6 milhões de brasileiros tem ao menos um tipo de deficiência, o que corresponde a 23,9% da população.

Turistas com deficiência foram petiscar em cadeiras de rodas Em Salvador

Há muitas barreiras e várias formas de ultrapassá-las. Foi este o sentimento que moveu um grupo de turistas com deficiência que participou numas miniférias organizadas pela Associação Salvador. Fizeram mergulho e vela adaptada, foram à praia e participaram na Rota do Petisco, que neste momento decorre nos conselho de Lagos, Vila do Bispo e Aljezur.

Frequentar um restaurante ou um bar é muitas vezes um pesadelo para quem tem problemas de mobilidade. Quem participa na Rota do Petisco tem a vida facilitada porque o passaporte da iniciativa gastronômica “informa quais são os estabelecimentos acessíveis para todos”, explicou ao CM Luís Matos, da associação Teia d’ Impulsos, que organiza o evento.

O grupo da associação Salvador foi a quatro estabelecimentos em Lagos, todos eles acessíveis a quem tem algum tipo de deficiência motora. “Toda a zona envolvente tem acesso para cadeiras de rodas e as nossas instalações estão preparadas para receber qualquer pessoa”, garantiu ao CM Humberto Costa, do restaurante Orangeri. Sara e João Almeida notaram que o estabelecimento “tem as rampas de acesso bem adaptadas ao contrário de outras que não têm a elevação que deviam e que depois não se conseguem subir”.

Também Miguel Ribeiro, do café Oceano, entende que os estabelecimentos “têm a obrigação de receber as pessoas com mobilidade reduzida como clientes normais”, confessando que sente “orgulho” em poder receber o grupo da associação Salvador.

A Rota do Petisco é uma verdadeira odisseia de sabores, em forma de roteiro gastronómico pelo Barlavento Algarvio. Os participantes na Rota usam o seu passaporte para percorrer os diversos restaurantes aderentes, podendo petiscar, e beber um copo, em cada um por apenas 3€. A ideia é percorrer o máximo de “capelinhas” possíveis, com um grupo de amigos e descobrir tudo o que a cozinha algarvia tem para oferecer.

Disfisen. A arte marcial de auto defesa desenvolvida para pessoas com deficiência!

Quando falaram a Patrick em praticar artes marciais mesmo sendo cego, ele pensou que era uma piada. “Eu nunca pensei que eu ia ficar cego, sem falar que havia uma técnica que poderia praticar”, diz ele. Acostumado a desfrutar de todos os sentidos, não foi fácil se adaptar a uma deficiência. “Eu me tranquei em casa. Eu não podia sair para tomar um café”, explica ele. Até um mês atrás, quando ele ouviu pela primeira vez o método Disfisen, o primeiro sistema de defesa pessoal destinado a pessoas com deficiência física ou sensorial.

Foi sua mãe que o encorajou a testar o sistema com a intenção de que Patrick, que ficou cego por quase dois anos, deixasse sua reclusão. Intimidados por seu novo status, se refugiou na casa de seus pais, o único lugar onde se sentia seguro. “Passava o dia em casa. Eu não tinha vontade de fazer nada”, confessa. Felizmente, Patrick sempre gostou de artes marciais e decidiu seguir o conselho de sua mãe.

Disfisen é um sistema de defesa pessoal totalmente adaptado a pessoas com deficiências físicas e sensoriais. Ele foi criado e patenteado pelo Pedro Vera, instrutor de artes marciais e sexto Dan na disciplina Yawara-Jitsu. O desenvolvimento do sistema foi proposto há três anos, ao ver a carência que havia neste campo, e tomou um novo impulso depois que o mesmo sofreu logo depois uma paralisia em metade do corpo por uma trombose. “A disciplina tradicional de auto-defesa não serve as pessoas com deficiência”, explica ele, “mas que se adapta às características de cada um e permite-lhes melhorar o que tem”, diz Pedro.

O método desenvolvido por Vera parte do estudo de várias artes marciais, especialmente o Yawara-Jitsu, o qual é um instrutor internacional. O sistema é flexível, pois ele é projetado para atender às necessidades específicas de pessoas com diferentes deficiências. “Ele se adapta a cada um. Se a pessoa é cega, estimula tato e audição, se deficiente físico, o tronco e braços”, explica ele ao fazer demonstrações sobre um tatami.

“Queremos que seja eficaz. A uma pessoa com deficiência não serve somente aplicar um golpe forte, porque ele não pode escapar. O que se busca é a imobilização, e não é preciso muita força nem todos os sentidos”, diz Pedro. Patricio confirma essa avaliação. “Não vejo dificuldades poder reagir em caso de ter um contratempo. Sou cego, mas eu sou capaz de me defender”, diz ele, confiante.

Talvez essa seja uma das principais vantagens de praticar esta disciplina: a segurança que ela proporciona. Além de ser uma ferramenta útil para restaurar e melhorar as habilidades físicas e cognitivas (equilíbrio, reflexos, agilidade, velocidade de reação, etc), a técnica tem como efeito colateral melhorar a psicologia das pessoas que a praticam. “Eu me sinto muito mais seguro. Eu melhorei na orientação, antes ne perdia. Também na audição e olfato. Inclusive ando melhor “, diz Patricio.

Para Pedro Vera o desenvolvimento desta parte é inevitável e tão importante quanto melhorar o nível físico. “Os benefícios são muitos”, diz ele. Ele mesmo é um exemplo disso, já que experimentou em seu próprio corpo os efeitos. “Eu tenho uma deficiência, mas a prática tem me ajudado muito, tanto física como emocionalmente”, assegura. Agora seu objetivo é que os outros possam experimentar os seus benefícios.