De Bebê Johnson’s a “Breaking Bad”: ativistas que tentam mudar a imagem da deficiência na mídia contam vitórias

Ao som da música suave e delicada, a câmera passeia pelo corpo do bebê, revelando, aos poucos, os gestos, as mãozinhas, os pezinhos. Até focar no sorriso contagiante e nos olhinhos característicos da síndrome de Down. Ao final do comercial de TV que viralizou no Brasil no dia das mães, o slogan diz: “Para nós e para todas as mães, todo bebê é um bebê Johnson’s”.

Em uma das séries mais populares da TV americana dos últimos tempos, Walter White Jr. é um adolescente cheio de vida. Com personalidade forte, questiona constantemente as decisões do pai, o personagem principal. O adolescente (assim como o ator que o interpreta, RJ Mitte) nasceu com paralisia cerebral. Tem a fala comprometida e usa muletas. Breaking Bad ficou no ar entre 2008 e 2013 e teve cinco temporadas.
Na novela da Globo, Luciana é uma modelo jovem, bonita e bem-sucedida. Sofre um acidente e fica tetraplégica. O público quer saber: ela voltará a andar? Luciana se apaixona, se casa, tem filhos. Ao final da novela Viver a Vida, exibida pela Globo entre 2009 e 2010, o público agora quer saber: ela vai ser feliz?
A população da Terra ultrapassou os 7,5 bilhões em 2016. Destes, mais de 1 bilhão, ou seja, 15%, têm algum tipo de deficiência. No Brasil, o índice sobe para 24%.
Estima-se que menos de 1% dessas pessoas estejam presentes na mídia.
Os exemplos acima mostram, no entanto, que as coisas estão mudando. E por trás dessa transformação está o ativismo de pessoas que, com diálogo e muita paciência, trabalham para mostrar a roteiristas, publicitários e profissionais da mídia que existe um outro jeito de pensar – e de representar – a deficiência.
A BBC Brasil conversou com três dessas militantes: Patrícia Almeida, jornalista e fundadora da Gadim, Aliança Global para a Inclusão de Pessoas com Deficiência na Mídia e Entretenimento (e ex-jornalista do serviço brasileiro da BBC); Flávia Cintra, ex-diretora da ONG Centro de Vida Independente, hoje repórter do programa Fantástico, da TV Globo, e Patrícia Heiderich, publicitária e cofundadora do Instituto MetaSocial, ONG que trabalha por uma mídia mais inclusiva. Elas falam das vitórias do movimento e explicam seu impacto na sociedade.
Bebê Johnson’s
“O simbolismo deste personagem é enorme pois o ‘Bebê Johnson’s’ habita o imaginário da população como sinônimo de criança linda, saudável e feliz, como todas as crianças deveriam ser“, comenta Patrícia Almeida em artigo publicado no site sobre inclusão e cidadania Inclusive.org.br.
O anúncio, do publicitário Nizan Guanaes, foi recebido com particular orgulho por duas pioneiras do movimento pela inclusão de pessoas com deficiência na mídia. Para entendermos por quê, temos de voltar no tempo.
Na década de 1990, a publicitária Patrícia Heiderich e a arquiteta Helena Werneck estavam cansadas de ver outras mães saírem do parquinho quando chegavam com as crianças para brincar. Decidiram tomar uma atitude.
 
“Tínhamos filhas com síndrome de Down e éramos felizes. Lembra do comercial da Doriana, da família feliz?”, pergunta Heiderich. “Eu estudava publicidade e achava que poderíamos mudar o estigma que havia sobre Down por meio da televisão.
A dupla iniciou então uma verdadeira campanha para chegar a um publicitário cuja carreira despontava na propaganda brasileira: Nizan Guanaes. “A ideia era convencer Nizan a colocar alguém com síndrome de Down em uma propaganda no estilo família feliz.”
Heiderich e Werneck se revezavam nos telefonemas. Todos os dias, lembra Heiderich, elas ligavam para a agência onde Guanaes trabalhava, a DM9, e pediam para ser recebidas por ele. O assunto? “É só com ele”, vinha a resposta. Insistiram tanto que ganharam cinco minutos.
 
“Ele não se sentou. Tentamos contar da maneira mais rápida possível que pessoas com Down podiam fazer um monte de coisas. Que a visão de incapacidade não era real. As pessoas não sabem. Não era maldade, mas a sociedade desconhecia. Ele virou, cruzou os braços e falou: ‘Nunca pensei nisso. E gostei’.
Pessoas próximas ao publicitário dizem que ele não se lembra do encontro, mas em 1996 foi ao ar um anúncio institucional sobre síndrome de Down criado pelo publicitário Sérgio Valente, colega de Guanaes na DM9.
“Este é Felipe Badin. Está tocando O Trenzinho Caipira, de Villa-Lobos. E você, que música você toca?”, dizia a narração. O filme mostrava apenas as mãos de Felipe tocando piano. No final do anúncio, ele virava o rosto para a câmera. O slogan dizia: “Quem tem síndrome de Down pode mais do que você imagina”.
 
“Coitadismo”
Dois anos depois, a mesma agência produziu um novo anúncio sobre Down. Desta vez, explica Heiderich, o objetivo era desassociar a imagem da síndrome de Down de sentimentos de pena usados por instituições para pedir dinheiro à população.
O anúncio mostrava duas crianças brincando em um carrossel. Não havia narração, apenas música e legendas: “Carlinhos vai para a escola todos os dias, o amigo dele, não. Carlinhos faz aula de piano, o amigo dele, não”. Num determinado momento, a legenda dizia, “Este é o Carlinhos.” A câmera focava o rosto de um menino com Down. E depois: “E esse é o amigo dele. Ele é um menino de rua.”A câmera mostrava a roupa puída e os pés calçando chinelo. No final, lia-se o slogan: “Milhares de crianças no Brasil precisam da sua ajuda. Portadores da sindrome de Down só precisam do seu respeito. A pior sindrome é a do preconceito.” (Aliás, diz Heiderich, a palavra “portador” não é mais usada no contexto da deficiência.)
A ideia que embasa esse anúncio é central ao pensamento inclusivo, explicam as ativistas: inclusão não pode ser feita com base na pena. Aliás, essa ideia se aplica também ao menino de chinelo, o amigo de Carlinhos.
“Como é que você consegue ver competência em uma pessoa quando sente pena dela? Não podemos apelar para a pena porque estaremos dando um tiro no pé”, diz Heiderich.
“Você doa para a Mata Atlântica ou para as baleias porque quer que continuem existindo, quer preservá-las, não por pena. O bebê com Down está sendo mostrado como uma figura de amor, como todos os bebes são. E não é porque tem Down, mas porque é um bebê fofo.
Empatia
Visto dessa maneira, o conceito de inclusão parece contrariar uma noção social básica. Quase como se fosse errado sentir compaixão por alguém.
 
“A palavra hoje é empatia. Você se identificar, se colocar na pele do outro, é fundamental”, diz a jornalista Patrícia Almeida.
Do lado oposto, está o que os ativistas chamam de “coitadismo”: “A ideia de que a pessoa com deficiência sempre precisa de ajuda”, diz ela.
 
“Os que usam disso para arrecadar dinheiro dizem que os fins justificam os meios, mas o resultado para a pessoa com deficiência é terrível. Aliás, quem tem de equalizar, igualar as oportunidades é o Estado. Isso é o que dizem todas as leis.”
Para explicar melhor, Almeida cita o modelo de inclusão presente em séries de TV americanas como Breaking Bad e Switched at Birth. Elas incluem personagens com deficiências interpretados por atores com deficiências. Mas a última coisa que o espectador sente por eles é pena.
Em Breaking Bad, Walter Jr. tem paralisia cerebral, mas o foco não é esse. Ele é um adolescente como qualquer outro.
É incrível como a mensagem tem a ver com a atitude da pessoa (que têm a deficiência) e das pessoas em volta. Se a pessoa com deficiência aparece na tela em situação de normalidade, ninguém fica protegendo ou dizendo, ‘coitado do meu filho’. Você esquece que a pessoa tem deficiência depois de cinco minutos.”
“Essa mídia tem esse poder. Se você não tem contato no seu dia a dia com pessoas com deficiência e vê essa pessoa na tela, incluída com naturalidade, você tende a incorporar essa atitude.”
Na série Switched at Birth, as protagonistas são duas adolescentes que foram trocadas na maternidade. Uma delas é surda. Em cinco temporadas no ar, a série inclui cenas gravadas em total silêncio. Toda a comunicação se faz por língua de sinais.
“Me chama atenção por ter pessoa surda como personagem principal, (por apresentar ao público) o universo das pessoas surdas. Mas ela ser surda não é o foco. O foco é ela ter sido trocada (na maternidade)”, diz Almeida.

“A deficiência é uma das características da pessoa, não é o ponto principal. A série é para adolescentes. (A trama) toca em todas as questões, o namorado, o primeiro emprego. E todo mundo junto, incluído. Surdos, não surdos… muito legal.”


Deficiência e castigo

Além de mostrar a deficiência como algo natural, tramas como essas rompem com um velho vício dos contadores de história ao longo dos séculos: a associação da deficiência com a ideia de punição.

E, no caso do Brasil, nada como uma telenovela para ilustrar isso. “Na novela O Direito de Nascer (1964), um personagem malvado ficou deficiente, como um castigo”, diz Almeida.

Por outro lado, havia nas histórias personagens que perdiam a visão, paravam de andar, mas sempre surgia uma cura milagrosa e um final feliz. Você não podia ser deficiente e feliz ao mesmo tempo.”

Mas também nas telenovelas as coisas vêm mudando. Com a ajuda, mais uma vez, de um empurrãozinho.

“A primeira novela com personagem positivo com deficiência foi ao ar em 1986, Roda de Fogo, da Globo”, conta Almeida. “Uma cadeirante, Rosângela Berman, soube que iam fazer uma novela e que ia ter um personagem cadeirante. Ela foi ao estúdio e viu que iam botar o garoto em uma cadeira de rodas de hospital e que (o personagem) ia ser deprimido. Então bateu um papo com os roteiristas.”
Resultado? O personagem ganhou cadeira ultramoderna e teve até vida sexual na novela, algo sem precedentes na época.
Alguém foi lá e falou, vem cá, por que vocês não fazem assim?”, conta. Desde então, autores de novela regularmente procuram consultoria de militantes pela inclusão.
Final feliz
A ativista Flávia Cintra, hoje jornalista da equipe do programa Fantástico, da Globo, deu consultoria ao escritor Manoel Carlos na novela Viver a Vida (2009), estrelada por Alinne Moraes.
Tetraplégica, Cintra era bastante ativa no movimento pelos direitos de pessoas com deficiência. Quando ficou grávida, sua gestação gerou grande interesse na mídia. Seu caso chegou aos ouvidos de Manoel Carlos.
Por eu ser tetraplégica, por serem gêmeos, por ter sido uma gravidez natural”, ela explica o interesse.
Tempos depois, Cintra foi convidada para ser consultora da equipe de roteiristas e também para orientar a atriz.
“Alinne Moraes era uma celebridade do primeiro escalão de elenco da Globo. Era a segunda protagonista, mas o envolvimento do público foi tamanho que ela acabou se tornando personagem central da novela”, conta Cintra.

Viver a Vida teve, sim, um final feliz. E a personagem de Alinne Moraes, Luciana, não voltou a andar.

A inclusão na mídia tem o poder de mudar a cabeça do público, dizem os ativistas. Ela também fortalece a autoestima das pessoas com deficiência, que conseguem se ver e se identificar. E ainda transforma as vidas dos que já brigam por ela.
Para mim, um divisor de águas foi (a novela) Páginas da Vida (2006), do Manoel Carlos, onde havia a personagem Clarinha, com sindrome de Down“, diz Patrícia Almeida.
Clarinha fica órfã de mãe e é adotada por uma médica interpretada por Regina Duarte.
“É muito legal porque todo mundo adora a menina. No final, o pai de Clarinha luta pela guarda da filha com a médica. Ou seja uma criança com deficiência que todo mundo queria, um presente.”
Almeida tem uma filha com Down. Ela ainda se emociona quando lembra de um capítulo em particular:
Na época, minha filha tinha dois anos. Eu sabia da consultoria que estava sendo feita por trás da novela, conhecia as pessoas. Mas mesmo assim, quando a Regina Duarte falou, na novela, que a Clarinha era uma criança como qualquer outra, eu finalmente acreditei. Racionalmente eu já tinha entendido essas coisas, mas o que faltava era o emocional. Depois disso, não teve volta.”
 

IMPRESSORA 3D COM BIOTINTA DE CÉLULAS-TRONCO FABRICA IMPLANTE PARA COLUNA VERTEBRAL

Cientistas da Universidade de Cornell (EUA), liderados pelo Dr. Lawrence J. Bonasser, estão inovando na cirurgia de coluna vertebral: eles querem utilizar técnicas de impressão 3D carregadas com biotinta infundida de células-tronco para reparar os discos da coluna vertebral degenerativas de 30 milhões de norte-americanos. Dr. Bonasser não é estranho ao mundo da impressão 3D. Ele já liderou o desenvolvimento de ouvidos humanos protéticos quase perfeitos. Mas o seu mais novo projeto é intensificar ainda mais a linha entre a realidade e a ficção científica.
Impressora 3D pode revolucionar a medicina
Imaginem uma sala de operação que mais parece uma baía de impressão. A mesa cirúrgica é equipada com dispositivos de digitalização. Logo depois de o paciente ser preparado para a cirurgia, a impressora inicia a impressão de cordas de células estaminais em porções altamente específicas do disco vertebral do paciente. Como a cirurgia é longa, as células-tronco começam a decretar a “programação biológica” e preencher-se com novos tecidos de hérnia de disco. Depois de algumas semanas, esse processo se completa e o paciente fica com uma coluna perfeita.
Esta realidade imaginada não está tão longe. O teste já foi feito em mais de 100 ratos, e o Dr. Bonasser admite que é uma operação bastante avançada e cara para ser realizada em ratos. Uma vez que os discos intervertebrais foram regenerados, em casos mais extremos de degeneração da coluna vertebral, o laboratório do Dr. Bonasser também foi capaz de criar discos da coluna vertebral inteiramente novos, impressos de acordo com as necessidades individuais de cada cobaia. A cirurgia para substituir um disco é um pouco mais invasiva do que a de reparação, mas ambas as opções são muito superiores em relação a opção anterior, de fusão da espinha de um paciente.
Para os 30 milhões de americanos que sofrem de doença degenerativa do disco, o avanço real será comemorado quando esse tipo de operação for realizada em seres humanos. Agora é esperar para ver quanto tempo leva até lá.

CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIAS NÃO PRECISAM DE COMPAIXÃO

As crianças com Deficiências não precisam de compaixão, precisam de outras atitudes em relação a elas que certamente qualquer pessoa pode oferecer: naturalidade, carinho e compreensão. Ninguém gosta que outra pessoa a olhe com um olhar de pena.
Um olhar compassivo pode ter toda a boa intenção do mundo, mas na realidade pode estigmatizar e desvalorizar a pessoa à sua frente. Quando somos olhados com compaixão por um defeito físico, uma situação econômica difícil ou por termos cometido um erro, nos sentimos muito piores; pensamos que fizemos alguma coisa de errado para causar essa pena.
A criança e sua família passam por uma infinidade de situações estressantes que podem ser mais suportáveis se perceberem ao seu redor um bom apoio social, no qual se sintam envolvidos e compreendidos. Vamos descrever algumas situações pelas quais essas famílias e crianças passam para desenvolvermos uma atitude empática e adequada para com elas.
A deficiência não te define; o que te define é a forma como você encara os desafios que a deficiência te apresenta.”
-Jim Abbott-
 

Um diagnóstico difícil

Cada gestação em uma mulher é diferente, mas todas as mães e pais têm o desejo de que as coisas saiam da melhor forma possível, que seu futuro filho tenha uma saúde perfeita para poder seguir enfrentando as demandas deste mundo cada vez mais exigente.
 
Podem aparecer exames que detectem problemas genéticos na gravidez, derivados de teratógenos e outros exames que detectem uma doença incurável no feto. Os pais irão agir perante essa situação difícil e irão decidir se devem ou não seguir adiante com a gravidez, segundo suas próprias reflexões e valores que iremos descrever a seguir.
Para muitos pais e mães, o diagnóstico já é comunicado na gravidez. Para outros, este diagnóstico se dará no nascimento e nos outros casos, as dificuldades da criança só se manifestarão mais tarde. Seja como for, esse é um diagnóstico duro, complicado e que causa um grande impacto emocionalÉ neste momento do diagnóstico que a mulher, sozinha ou com seu parceiro, deve assumir que a sua maternidade será diferente, nem melhor nem pior… e este é um momento fundamental para o enfrentamento posterior. A informação deve ser precisa, concisa e transmitida com delicadeza e compreensão.
 
Lidando com o diagnóstico
Esse é o momento de escolher as informações positivas, de desenhar um plano como pais para enfrentarem juntos o cuidado de seu filho, de amarem-se psicologicamente e de estarem cientes de que a criação desse filho será uma corrida de obstáculos, mas com a adição de que enfrentarão algo desconhecido.
Pouco a pouco, assumindo o diagnóstico, os pais se entregarão à criação da criança com toda a força e esperança para poderem alcançar as conquistas das quais seu filho precisa. Sessões de reabilitação, possibilitar um bom espaço para a criança e um projeto baseado no carinho, que é o que essa criança e qualquer outra realmente precisa.
Uma criança especial está com a gente
As crianças com Deficiências têm muito que nos ensinar. Elas são campeãs que lutam para poder superar muito lentamente as dificuldades que têm, e fazem isso quase sem reclamar, com um sorriso no rosto.
Às vezes os sentimentos delas são tão intensos que nos estremecem, mas as pessoas ao redor delas têm que lhes passar uma imagem de positividade, de que estão com elas ajudando-as em seu pequeno desafio diário.
Parte do problema com a palavra “deficiência” é que ela sugere uma incapacidade de ver, ouvir, andar ou fazer coisas que muitos de nós damos por certo. Mas o que acontece com as pessoas que não podem sentir, falar dos seus sentimentos, controlar seus sentimentos, estabelecer relações próximas, realizar-se, gente que perdeu a esperança, que vive na miséria e amargura? Para mim, essas são as verdadeiras deficiências.”
-Fred Rogers-
As crianças com Deficiências abrem o coração para você e não guardam nada para elas. São puro sentimento em um corpo que talvez não lhes responda. São agradecidas, extremamente carinhosas, julgam com os olhos do amor e seu silêncio não é um incômodo. É o silêncio da calma e da sua reflexão que também é nossa.
Muitas vezes, elas visitam mais hospitais e centros de reabilitação em alguns meses do que nós em toda a nossa vida. Elas não merecem um olhar de compaixão, porque não há nada para sentir pena. Elas nos dão uma lição de luta e vida em todos os momentos. Pura e bela, uma cura incalculável.
 
A integração com os colegas e com a sociedade
Essas crianças podem encontrar dificuldades maiores ou menores em se adaptar ao seu ambiente. Infelizmente, pessoas  que “a priori” não têm nenhuma deficiência intelectual comportam-se com certo tédio em relação a elas, com olhares compassivos e murmurando o quanto “isso” deve ser terrível.
Além disso, ainda se atrevem a fazer comentários ainda mais prejudiciais: “Que pena que você é assim”, “Coitada, isso é tão injusto” ou “Bem, Deus sabe porque faz essas coisas”. A ignorância de certo tipo de gente deve chegar a machucá-las.
É preciso eliminar essas pessoas da vida da criança e dos pais, e ignorá-las como elas merecem. A maior parte das pessoas é boa, educada e respeitosa em relação a isso, então não há nenhuma razão para dar mais importância a essas pessoas do que elas têm.
As pessoas que amam a criança só precisam levar a situação com naturalidade, como um problema de desenvolvimento e médico que pode ser tratado com os melhores profissionais e junto às pessoas que adoram vê-la sorrir como nenhuma outra coisa em suas vidas.
Nós devemos lutar por sua integração nos parques, nas escolas ou remover barreiras arquitetônicas. Porque um pouco de justiça, bons profissionais e um círculo cheio de amor em torno da criança podem operar o milagre: vê-la feliz a maior parte do dia.
Seus familiares, colegas, profissionais e amigos não vão pedir mais nada, porque se você vê o seu filho feliz, seja qual for a sua circunstância, há algo mais importante?

20 coisas que você precisa saber sobre celulas tronco

Considerada esperança para o tratamento de muitas doenças, como leucemias, diabetes, distrofia muscular e doenças neurodegenerativas, as pesquisas com células-tronco são também alvo de muita polêmica, principalmente, quando se trata de células embrionárias.

No Brasil, a decisão de permitir este tipo de pesquisa estava nas mãos do Supremo Tribunal Federal que no julgamento encerrado esta semana decidiu autorizar as pesquisas com as celulas tronco embrionárias.

O Nominuto.com divulga as 20 perguntas sobre celulas tronco publicadas no NaSemana de 5 de abril. Foram consultados o Departamento de Ciências Biológicas da UFRN, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o Supremo Tribunal Federal e entrevistas concedidas pela geneticista Mayana Zatz à revista Veja.

1- O que são células-tronco?

As células-tronco ou estaminais são aquelas capazes de se diferenciar e assim estruturar diferentes tecidos do organismo. Estas células têm como principais características à capacidade de auto-replicação, alto potencial de diferenciação e proliferação durante toda a vida do organismo.

2- Quais os tipos de células-tronco?

Existem diferentes tipos de células-tronco, mas a principal diferença está na existência. Dessa forma, podem ser definidas como células-tronco embrionárias e células precursoras do organismo já desenvolvido, chamadas células-tronco adultas.

3- Que tipos de células-tronco são mais utilizadas em pesquisas? Por quê?

As células-tronco mais utilizadas em pesquisas são as adultas por serem de mais fácil acesso, inclusive podendo ser extraídas do cordão umbilical. Porém, as células-tronco adultas têm resultados limitados com relação às células-tronco embrionárias, que podem dar origem a qualquer um dos 216 tipos de tecidos que formam o corpo humano.

4- Que tipos de tecidos e órgãos podem ser produzidos com o uso das células-tronco?

As células-tronco podem dar origem a tecidos muscular, nervoso, sangüíneo, cartilaginoso e ósseo. Sobre a diferenciação em órgãos ainda tem poucas pesquisas e que estão em fase inicial.

5- As pesquisas com células-tronco podem ajudar no tratamento de quais doenças?

As pesquisas realizadas apontam que as células-tronco podem ser importantes para o tratamento de doenças como leucemias, diabetes, distrofia muscular, doenças neurodegenerativas, como mal de Parkinson, cirroses hepáticas, hepatite, e acidentes com complicação da medula espinhal.

6- Na prática, que pessoas podem ser beneficiadas por essas pesquisas em um prazo mais curto?

A leucemia é uma das doenças que o tratamento já faz uso das células-tronco, que é retirada da medula óssea de um doador compatível. Para outras doenças existem muitos estudos, mas que não devem ter resultado em um prazo curto.

7- As células-tronco poderão curar o câncer?

Não há ainda estudos com células-tronco que levem à cura de câncer, como prostático, de pulmão ou renal. Contudo, como as células-tronco podem se diferenciar, é possível que no futuro possa originar uma cura para outros tipos de câncer, além da leucemia.

8 – Qual a diferença entre clonagem e pesquisas com células-tronco?

A clonagem é a geração de uma célula idêntica a gerada. As células-tronco são um clone da antecessora até o momento em que se diferencia.

9 – O que é clonagem terapêutica?

A clonagem terapêutica consiste na transferência de núcleos de uma célula para um óvulo sem núcleo. Este óvulo dará origem a um embrião, do qual se retiram as células-tronco. Este tipo de clonagem é diferente da clonagem reprodutiva, que é quando um embrião clonado é implantado em um útero, com o objetivo de reprodução de pessoas.

10- Quais os grupos de pesquisas mais avançados?

As pesquisas com células-tronco embrionárias são mais avançadas na Inglaterra, Austrália e Israel, onde a lei permite esse tipo de pesquisa há muito tempo. Nesses países existe um ambiente mais favorável como recursos para as pesquisas e cientistas de ponta.

11- Como o Brasil se insere nesse contexto das pesquisas?

No Brasil, existem alguns centros de excelência, mas o número de cientistas que dominam a técnica e são capazes de fazer o que se faz nos países desenvolvidos ainda são insuficientes. Uma das principais pesquisadoras de células-tronco do país é a geneticista e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano (USP), Mayana Zatz. Na Bahia, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz estão tratando com sucesso cardiopatias causadas pela doença de Chagas. No Hospital Pró-Cardíaco do Rio de Janeiro e no Instituto do Coração de São Paulo, células-tronco são usadas em pacientes que sofreram infarto.

12- No Rio Grande do Norte existe algum grupo que pesquise células-tronco?

Em Natal há um grupo formado por profissionais de várias áreas, ligados a UFRN. A pesquisa é voltada para regeneração óssea e interação com implantes de titânio ortodônticos e ortopédicos. O estudo visa observar a proliferação e diferenciação das células-tronco em superfícies de titânio. Isso porque em implantes geralmente se forma um vácuo e com as células-tronco há uma possibilidade de integração.

13- Qual a técnica para extração das células-tronco embrionárias?

As células-tronco embrionárias devem ser extraídas entre o 12º e o 14º dia do desenvolvimento do embrião, ou seja, antes de desenvolver o sistema nervoso. Para isso, são utilizados embriões descartados de experiências de inseminação artificial.

14- Que tipo de embrião é utilizado?

A legislação brasileira permite apenas a utilização de embriões inviáveis e congelados há mais de três anos. Mas, para que o estudo seja feito, os pais devem autorizar a pesquisa expressamente.

15- Qual o questionamento ético e religioso a respeito das células-tronco?

O principal questionamento a respeito das pesquisas com células-tronco é com relação ao uso de embriões. A discussão gira em torno de quando começa a vida humana. Os cientistas defendem que a vida humana começa com a formação do sistema nervoso e, portanto, os embriões usados não seriam ainda um ser humano. Já os opositores acreditam que a vida humana começa com a fecundação e, com isso, o uso de embriões seria ferir o direito à vida.

16- Que setores são contrários as pesquisas?

Os principais opositores das pesquisas com celulas tronco embrionárias são grupos religiosos. Porém, um pequeno grupo de cientistas também se opõe às pesquisas, alegando que as células-tronco adultas podem ser usadas em substituição às células embrionárias nas pesquisas científicas. Eles ainda defendem que existe vida humana a partir da fecundação.

17- Qual a posição da Igreja Católica?

A Igreja Católica é a principal opositora das pesquisas com células-tronco embrionárias. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realizou várias campanhas contra esse tipo de pesquisa no país. Um dos objetivos do movimento é evitar que as pesquisas com células-tronco embrionárias abram precedentes para a legalização do aborto.

18- Existe uma legislação que regulamente as pesquisas de células-tronco no Brasil?

No Brasil, a Lei de Biossegurança, sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva em 24 de março de 2005, estabelece normas e mecanismos de fiscalização que regulamentem qualquer atividade que envolva organismos geneticamente modificados e seus derivados. O artigo 5º permite as pesquisas com células-tronco embrionárias. Este artigo foi alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade do ex-procurador da República, Cláudio Fonteles, que alegou “inviolabilidade do direito à vida”, que dependia da decisão do Supremo Tribunal Federal.

19- Como está o julgamento no STF?

A Ação Direta de Inconstitucionalidade está no Supremo Tribunal Federal desde maio de 2005. No último dia 05 de março foi iniciado o julgamento, suspenso em razão de um pedido de vistas do ministro Alberto Menezes Direito. O julgamento foi retomado nesta quarta-feira (28) e encerrado nesta quinta-feira (29). A decisão por seis votos a cinco foi pela a autorização das pesquisas com células-tronco embrionárias sem restrições, além das determinadas pela lei.

20 – O que diz a legislação sobre células-tronco em outros países?

O Reino Unido, África do Sul, Rússia, China, Cingapura, Coréia do Sul, Israel e Japão, permitem todas as pesquisas com embriões, inclusive a clonagem terapêutica. A Alemanha permite a pesquisa com linhagens de células-tronco existentes e sua importação, mas proíbe a destruição de embriões. A Itália proíbe completamente qualquer tipo de pesquisa com células-tronco embrionárias humanas, inclusive sua importação. A França não tem legislação específica, mas permite a pesquisa com linhagens existentes de células-tronco embrionárias e com embriões de descarte. Os Estados Unidos proíbe a aplicação de verbas do governo federal a qualquer pesquisa envolvendo embriões humanos, exceto no caso de 19 linhagens de células-tronco já derivadas quando a lei foi aprovada. O México é o único país latino-americano além do Brasil que possui lei permitindo o uso de embriões.

Células-tronco têm efeito positivo no tratamento de distrofia muscular Brasil tem avançado cada vez mais em pesquisas com células-tronco. Pesquisadores testaram célula-tronco do tecido adiposo de camundongos.

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) testaram células-tronco encontradas no tecido adiposo de camundongos com distrofia muscular, que provoca a paralisação progressiva dos músculos até a morte. Eles descobriram que elas aumentaram a expectativa de vida dos animais.

O administrador Sérgio Santos Soares tinha 25 anos quando descobriu que tinha esclerose múltipla, uma doença crônica que atinge o sistema nervoso central. Ele ficou sem poder andar e precisou de ajuda até para comer. “Para eu partir uma pizza, uma carne, nossa, eu ficava nervoso, escorregava do meu prato. Não tinha força para pegar os talheres”, conta.

No ano passado, aos 37 anos, Sérgio passou pelo transplante de células-tronco. Ele foi um dos primeiros no Brasil. Depois disso, a doença nunca mais se manifestou e hoje ele se locomove com a ajuda de um andador. “Foi uma maravilha pra mim. Foi uma nova vida que Deus me deu através dos médicos aqui na Terra”, comemora.

O Brasil tem avançado cada vez mais nos estudos das células-tronco para o tratamento de doenças. Foi do laboratório do Centro de Pesquisas do Genoma Humano do Instituto de Biociências da USP que saiu a mais recente descoberta na área no Brasil.

Os pesquisadores descobriram que células-tronco adiposas, quando transplantadas em camundongos com distrofia muscular grave, aumentavam o tempo de vida desses animais em 30%, em média.

Eles testaram as células-tronco retiradas de vários tecidos na região abdominal de mulheres que passaram por cirurgias. “Nós abordamos pacientes que estavam fazendo cirurgias ginecológicas e conseguimos obter materiais do mesmo paciente, de quatro tecidos diferentes. Nós tiramos da gordura, do músculo, da trompa e de endométrio”, relata Marcos Valadares, pesquisador da USP.

Somente as células de gordura implantadas nos camundongos surtiram efeito e os animais viveram 30% a mais do tempo médio esperado pelos pesquisadores. “Isso é um resultado muito importante, porque se a gente conseguir transferir para o paciente, a gente tiver o mesmo resultado, isso significa 20 anos a mais na vida da pessoa. Uma pessoa de 60 anos vai poder viver 20 anos a mais”, explica Mayana Zatz, diretora do Centro de Pesquisa.

Segundo os pesquisadores, em dez anos esse tratamento poderá estar disponível para humanos.

Fonte: Jornal Hoje