Resenha filme: “Decisões Extremas”

O filme Decisões extremas é baseado no livro The Cure: How a Father Raised $100 Million – And Bucked the Medical Establishment – in a Quest to Save His Children. O longa metragem narra o drama de John (Brender Fraser) e Aillem Crowley (Keri Russell), um casal que tem dois filhos que sofrem de uma doença congênita, chamada doença de Pompe. Baseado em fatos reais, mostra a luta de um pai para encontrar um meio de salvar os seus filhos, que, apesar de desenganado pelos médicos, não perde a esperança. Sem medir esforços, entra em uma verdadeira batalha contra o tempo, demonstrando coragem, ousadia e sagacidade.

A trama inicia mostrando o transporte das duas crianças portadoras da doença de Pompe, deixando claro que a família administra bem as dificuldades oriundas da situação dos filhos. O pai é um executivo muito bem remunerado, o que garante uma vida confortável à esposa e seus três filhos – um deles sem a doença -, com recursos que facilitam o cotidiano dos filhos doentes, como cadeiras de roda automáticas, automóvel adaptado e aparelhos médicos que são necessários.

Mesmo assim, o sofrimento do casal é inevitável por saberem que para esta doença não há cura, e que a expectativa de vida dos pequenos é de, no máximo, nove anos. Diante desta situação, o pai procura incansavelmente os avanços nas pesquisas sobre a doença e descobre sobre um possível controle para tal, realizada por Robert Stonehill (Harrison Ford), um pesquisador da Universidade de Nebraska. É impressionante a forma como esse encontro é bem dramatizado, e a forma como conduzem uma cena tão crítica, tornando-a cômica, o que, aliás, é uma característica marcante do filme: suavizar momentos dramáticos com um toque de humor. Deste encontro ficam dois sentimentos no expectador: a esperança, por descobrir que é possível desenvolver o medicamento que auxiliará no aumento da expectativa de vida de crianças portadoras dessa doença, e a revolta, ao nos depararmos com a realidade do quão desvalorizada é a área da pesquisa científica, pois o Dr. Stonehill deixa claro que pouco, ou quase nenhum investimento é dado para a sua pesquisa enquanto se investe mais em um time de futebol. Ao longo da trama, é possível verificar várias críticas às grandes corporações, o que na realidade, é uma característica predominante dos filmes de Hollywood.

 É neste contexto que John toma uma decisão extrema, deixa seu emprego e junta-se ao Dr. Stonehill em busca de investimentos para avançar sua pesquisa. É o momento em que os expectadores ficam torcendo pelo sucesso da relação entre pai dedicado e cientista egocêntrico, porém, nos deparamos com momentos em que o pesquisador põe tudo a perder ao não aceitar imposições dos financiadores. É possível nesta passagem do filme fazer uma ponte com o texto de Bogdan e Biklen (1994), através da afirmação de que “… a ética consiste nas normas relativas aos procedimentos considerados corretos e incorretos por determinado grupo.” (p.75). Pois estes possíveis investidores da pesquisa, impoem que estas normas pré-estabelecidas sejam seguidas, é neste momento que o Dr. Stonehill descorda da aplicação “ao pé-da-letra” das regras, o que gera uma ruptura da negociação.  Mesmo assim, John continua sua batalha de forma inteligente e sagaz, e decide ir à casa de um dos possíveis financiadores, a fim de lançar-lhe uma proposta. Entretanto esse homem não demonstra interesse, mas por insistência, se compromete a ler as propostas e, em menos de um minuto, decide se filiar ao Dr. Stonehill. Neste momento, fica clara a contradição dos investidores, que anteriormente primavam pela ética no desenvolvimento dos testes e agora demonstram uma preocupação superior com os lucros. A casa do médico executivo é uma denúncia de seu interesse capitalista acima de tudo.

Finalmente, as pesquisas do “Dr. Egocêntrico” ganham investimentos verdadeiros, porém competindo com mais duas pesquisas sobre o tratamento da doença de Pompe. Ao decorrer do filme, ficamos otimistas com os avanços dos estudos ao serem desenvolvidos alguns medicamentos. Entretanto, o medicamento selecionado pela empresa para iniciar os testes não é a do Dr. Stonehill, que reconhece o seu medicamento como inacabado, mas afirma com precisão que a sua teoria é a melhor. Quando acreditamos que tudo está resolvido e poderemos ver o pai esforçado triunfar, surge mais um problema. A ética não permite que o medicamento seja testado em parentes próximos aos funcionários da empresa, por questões de conflito de interesses. Neste contexto, é possível mencionar novamente Bogdan e Biklen (1994) no momento em que apresentam os procedimentos considerados como imprescindíveis ao desenvolvimento de uma pesquisa com a ética em primeiro plano. O texto é bastante claro quanto ao vínculo e a interferência do investigador na pesquisa. Os autores afirmam que “Tem de saber definir a sua responsabilidade para com outros seres humanos quando estiver em contato com o sofrimento destes” (p.78), e essa posição não é tomada pelo pai das crianças, que é um dos gestores da empresa responsável pelo desenvolvimento do medicamento.  John entra em desespero e mais uma vez toma uma decisão extrema, e é pego ao tentar roubar o medicamento, porém é salvo pelo Dr. Stonehill, que mesmo tendo sido traído pelo pai com a seleção dos medicamentos, ainda lhe oferece a solução para o seu problema. Mais uma vez ocorre uma reviravolta no enredo do filme, e John é demitido para que a empresa possa realizar os testes nos irmãos que compartilham a mesma doença genética, o que é de extrema riqueza para a pesquisa.

O final do filme nos comove com a chegada do personagem de Harrison Ford ao hospital, e se entregando a emoção de ver as crianças, em gargalhadas, demonstrando bons resultados à pesquisa, devido à elevação do nível de açúcar no sangue. O pesquisador se permite emocionar junto à família que tanto lutou por esse momento. E os expectadores podem experimentar da sensação de orgulho daquele pai tão dedicado, compartilhando lágrimas e sorrisos com os personagens do filme.

O longa mostra uma bonita história de superação e persistência, e um dos fatores que se sobressai é o ponto de vista cientifico, que revelará um o misto de ideias e questionamentos a cerca do modo como o meio acadêmico e empresarial atuam, e as verdades do modelo capitalista e suas contraposições. Trava-se então uma guerra, de valores, prioridades e principalmente de ética, entre os personagens seguidos de cenas tensas e comoventes, da árdua luta para se conseguir provar a importância de um estudo cientifico, a dificuldade de ser comercializado e até onde se pode ir para salvar vidas.

 Portanto, constata-se que a obra apresenta vários questionamentos sobre a prática da pesquisa científica, demonstrando a existência de contradições e as inversões de valores que ocorrem em nossa sociedade. Apesar de abordar um tema de caráter acadêmico, o filme deve ser assistido por quem também aprecia um bom drama, já que possui uma pitada especial de fatos reais.

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Ricardo
Falar sobre si não é uma tarefa fácil, não é mesmo? Acho que por isso mesmo adiei tanto a atualização dessa página! Mas vamos tentar né? Você já teve a chance de conviver com um capricorniano? Pois é, aquele jeito louco, sonhador, aventureiro, e nem sempre com os dois pés no chão… Esse sou EU! Ricardo Tostes Pinto Perdigão, ou pra vocês, apenas Ricardo Tostes.

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