Entrevista com Rafael Magalhães

Rafael Magalhães, é morador da cidade de  São Paulo, tem 35 anos é pai, advogado, fisiculturista nas horas vagas e cadeirante há 15 anos.

Qual o motivo pelo qual você se encontra hoje em cadeira de rodas?

Eu sofri uma lesão medular decorrente de acidente automobilístico. Eu tinha 21 anos e dirigia alcoolizado. Eu não me lembro do acidente, mas um colega viu e disse que eu capotei o carro na avenida após derrapar na chuva. O carro bateu na guia e capotou derrubando um poste.

Qual a maior dificuldade que você encontrou até no presente momento?

A maior dificuldade no Brasil ainda é a locomoção. Temos transporte público adaptado, mas as ruas são péssimas. Nem de carro você anda direito, imagina em cadeira de rodas? Nos últimos anos aqui em São Paulo fizeram várias ciclovias. O Jeito é andar por elas, já que não tem bicicleta.

Você pratica algum esporte, ou já se interessou por alguma modalidade em especial?

Sim, sempre pratiquei, a vida toda. Depois da lesão eu fiquei uns quatro anos parado, mas fiquei obeso e me sentia muito mal. Aí voltei a fazer musculação e natação. Depois de alguns anos eu aderi ao fisiculturismo e em 2015 conquistei o título de Campeão Nacional categoria cadeirantes pela IFBB. Contudo, um mês depois sofri um erro médico e fiquei 4 meses de cama. De lá pra cá perdi minha capacidade atlética mas nesse exato momento estou tentando recuperar.

Tem dias que você pensa em ter sua vida “normal” de volta?

Não. A minha vida normal é esta! As vezes me mandam artigos sobre descobertas de procedimentos de cura de paraplegia… eu nem dou muita bola. Gostaria sim de voltar a andar um dia, mas não tenho pressa. Sei que isso vai acontecer em algum momento. Comigo ou com outra geração.

Você já se sentiu afastado de alguma amizade, depois que se tornou cadeirante?

Não, os meus amigos sempre foram muito parceiros. Certa vez um cara me fez uma declaração muito curiosa. Ele disse que admirava tanto uma amizade que um amigo tinha por mim, que ele tinha vontade de ser cadeirante para ter um amigo daquele jeito. Eu perguntei se ele tinha noção do que ele tava falando?!

Como é a reação das pessoas?

A maioria não sabe como lidar. Acho que nem eu sei qual é o jeito certo de lidar, ou se tem algum. Mas tem gente que se assusta, tem gente que oferece ajuda… tem gente que nem olha. O mais engraçado são as crianças, ou melhor, os pais das crianças. Elas olham e perguntam… pai/mãe, porque ele ta assim? Os pais não sabem onde enfiar a cara e mandam o filho olhar pro lado… praticamente arranca a criança de perto.

Você já foi vítima de preconceito por ser cadeirante?

Já. Eu gosto muito de balada, casa noturna. Já frequentei festas no mundo todo e em apenas um lugar sofri preconceito. Foi numa casa de música sertaneja em São Paulo. Não vou citar o nome, mas, “pelo amor de Deus”.

E após o acidente, quais foram suas maiores dificuldades? Do que você mais sentia falta, tipo coisas que queria fazer e não podia?

Evacuar rapidamente. Hoje perco mais de hora fazendo isso. Antes eu fazia 2 ou 3 vezes ao dia rapidão.

Como foi se acostumar ser um cadeirante?

Foi necessário.

Se tivesse o poder de mudar algumas coisas na cidade para facilitar a vida dos cadeirantes, o que seria?

Calçadas e acessos.

Quando e por quê decidiu entrar para o mundo do fisiculturismo?

Foi em 2015… começo de 2015, atendendo a um convite de uma organizadora de eventos adaptados. Ela me chamou para me apresentar no Arnold Classic. Eu tive 4 semanas para me preparar. Foi um desafio e gostei.

O que você considera como sendo a maior dificuldade de um cadeirante.

Vencer a preguiça. Temos todas as desculpas para sermos preguiçosos, mas isso não é certo conosco nem com quem está ao nosso redor. Mas é difícil.

Quando e por quê decidiu cursar direito?

Meu primeiro emprego oficial foi de “office boy” interno no Fórum. Hoje eles chamam de menor aprendiz. Mas é boy interno!! Ali decidi que queria ser juiz ou advogado. Tinha 16 anos.

E qual foi o momento que você julgaria como o mais difícil da sua vida até hoje? Em que mais teve que usar seu poder de superação?

Quando tive uma depressão, após ficar 4 meses de cama por um erro médico cumulado com o término de um relacionamento.

O que mais gosta de fazer nas horas vagas além de cuidar de malhar? Algum Hobbie?

Eu não tenho horas vagas. Além do meu emprego tenho duas empresas e um filho pequeno. Na hora vaga eu durmo.

 

Quais são seus projetos para o futuro?

Ficar rico. Bem rico.

 

O que você nos diz sobre o preconceito?

Isso é uma doença da sociedade. Todo mundo tem. Ninguém pode dizer que não é preconceituoso. Em algum momento, sobre alguma situação, todo mundo já apontou o dedo para falar de algo que não sabe.

 

Deixe um recado para pessoas que assim como você, possuem limitações em seu dia a dia.

Cada limitação superada é uma vitória. Você prefere ser um vitorioso ou um limitado?

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Ricardo
Falar sobre si não é uma tarefa fácil, não é mesmo? Acho que por isso mesmo adiei tanto a atualização dessa página! Mas vamos tentar né? Você já teve a chance de conviver com um capricorniano? Pois é, aquele jeito louco, sonhador, aventureiro, e nem sempre com os dois pés no chão… Esse sou EU! Ricardo Tostes Pinto Perdigão, ou pra vocês, apenas Ricardo Tostes.

1 comentário em “Entrevista com Rafael Magalhães

  1. Viviane Oliveira disse: 13/02/2018

    Maravilha a entrevista!

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